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    Saúde Mental na NR-1: Gestão além do Setembro Amarelo

    Daniela Casteleti — Psicóloga e Palestrante.

    Todo mês de setembro, a saúde mental ganha espaço nas empresas. Surgem palestras, campanhas e convites para que as pessoas procurem ajuda. Mas há uma pergunta que precisa vir depois: o que acontece quando alguém realmente pede ajuda?

    Em 2026, essa conversa ganhou um novo elemento. Desde 26 de maio, a NR-1 passou a explicitar a inclusão dos fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Isso não transforma empresas em clínicas nem gestores em psicólogos. Significa reconhecer que saúde mental também precisa ser pensada a partir das condições em que o trabalho acontece.

    Sobrecarga, falta de suporte, assédio e problemas na organização do trabalho são exemplos de fatores que precisam ser identificados, avaliados e gerenciados. O foco não é diagnosticar funcionários, mas ampliar a pergunta: existe algo na forma como este trabalho está organizado que pode representar risco para as pessoas?

    Esse olhar é especialmente importante no Setembro Amarelo. O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial; não cabe atribuí-lo a uma única causa. Mas prevenção também não deveria começar apenas quando alguém entra em crise. Ela acontece quando conseguimos reconhecer vulnerabilidades, modificar condições de trabalho que produzam riscos, ampliar recursos psicológicos e sociais e construir caminhos reais de acesso à ajuda.

    Por isso, saúde mental não pode permanecer como uma pauta restrita ao RH. Ela atravessa liderança, gestão, comunicação e relações de trabalho. Uma organização comprometida com prevenção precisa olhar para seus fatores de risco, ouvir trabalhadores, preparar lideranças e estabelecer fluxos claros de acolhimento e encaminhamento.

    Líderes, por sua vez, não precisam diagnosticar ou tratar. Precisam desenvolver repertório para perceber mudanças, abrir conversas respeitosas, escutar sem julgamento e saber encaminhar. A OMS recomenda justamente intervenções em diferentes níveis: mudanças organizacionais, capacitação de gestores, intervenções individuais e suporte às pessoas que enfrentam condições de saúde mental.

    É nesse ponto que a atualização da NR-1 e o Setembro Amarelo se encontram. Uma fala de prevenção pode conscientizar. Uma boa liderança pode abrir espaço. Uma rede de apoio pode acolher. Um profissional de saúde pode tratar. E uma organização pode analisar e modificar condições de trabalho que estejam produzindo riscos. Nenhuma dessas ações substitui as outras.

    Setembro Amarelo é uma oportunidade relevante para colocar uma conversa difícil em circulação. Mas ela não pode terminar com a campanha.

    Saúde mental nas empresas precisa deixar de ser compreendida como um evento no calendário e passar a ser tratada como uma prática de gestão, cuidado e prevenção ao longo do ano. Afinal, setembro precisa produzir consequências em outubro e nos outros dez meses do ano.

    Sobre a autora

    Daniela Casteleti é psicóloga e palestrante, com atuação em saúde mental e comportamento humano. Em seu trabalho, aborda temas relacionados à saúde emocional, relações humanas e desenvolvimento de habilidades para lidar com os desafios da vida e do trabalho. Integra o banco de palestrantes da 365 Palestras.

    Referências

    BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) — Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Redação vigente desde 26 de maio de 2026.

    BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Manual de Interpretação e Aplicação do Capítulo 1.5 da NR-1 — Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO): fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. 2026.

    BRASIL. Ministério da Saúde. Suicídio (Prevenção). Ministério da Saúde.

    WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Guidelines on Mental Health at Work. Geneva: WHO, 2022.

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